Tem jogo cooperativo em que você entra preocupado com os monstros. Em Grain Rot, depois de algumas partidas, eu provavelmente ficaria mais preocupado com o amigo ao meu lado. O game parece ter sido feito para aquele grupo que promete jogar sério, combina estratégia no lobby e, cinco minutos depois, está se empurrando para dentro de uma sala cheia de criaturas.
Só que reduzir Grain Rot a mais um “jogo engraçado para jogar com amigos” seria injusto. Por trás das quedas, sabotagens e corpos de madeira pegando fogo, existe um loop de extração que parece bem pensado, progressão permanente e uma das ideias mais curiosas que vi recentemente em um terror cooperativo: morrer não significa necessariamente parar de jogar.
Você morreu? Ainda dá para salvar a partida
Em Grain Rot, nós controlamos uma Living Spark, uma espécie de centelha que habita corpos de madeira. Esses corpos são bem pouco confiáveis: quebram, despedaçam e pegam fogo com uma facilidade que não inspira exatamente segurança.
Quando o corpo vai para o saco, porém, a Spark continua viva. Dá para sair procurando outro recipiente e tentar voltar para a partida antes de desaparecer de vez. Parece um detalhe pequeno, mas muda bastante aquela situação clássica dos jogos cooperativos em que alguém morre cedo e passa os próximos vinte minutos assistindo os amigos se divertirem.
Aqui, até dar errado vira parte da brincadeira. Você perde o corpo, começa a procurar outro e ainda pode tentar ajudar o grupo no meio do caos. É uma solução simples para manter todo mundo envolvido e, de quebra, combina muito bem com a estranheza do próprio jogo.
O maior perigo em Grain Rot é aquele seu amigo “engraçadinho”
Também não espere uma cooperação muito civilizada. Grain Rot permite chutar inimigos, mexer nos objetos do cenário e, obviamente, usar tudo isso contra os próprios companheiros.
Sabe aquele amigo que vê um botão vermelho e aperta só para descobrir o que acontece? Esse sujeito vai ser um problema aqui.
É possível bloquear alguém em um corredor, jogar um companheiro na direção errada ou simplesmente criar uma confusão que ninguém tinha pedido. E como boa parte do jogo trabalha com física, essas situações não parecem eventos planejados ou piadas prontas. Elas surgem naturalmente enquanto o grupo tenta sobreviver.
O resultado é aquele tipo de multiplayer em que você termina a partida lembrando muito mais da besteira que alguém fez do que do monstro que estava perseguindo todo mundo.

Quanto mais ganancioso, maior a chance de dar ruim
As partidas levam o grupo para ruínas subterrâneas que mudam de uma descida para outra. Lá embaixo, o objetivo é vasculhar tudo o que der, juntar recursos e decidir quando é hora de voltar para casa.
E é justamente nessa última parte que as coisas costumam sair do controle.
Sempre existe aquela tentação de continuar por mais uma sala. Mais um item. Mais um pedaço de sucata que talvez faça diferença depois. O problema é que quanto mais fundo o grupo avança, pior fica a Rot e mais perigosos se tornam os inimigos.
Algumas criaturas corrompidas reagem a som e movimento, o que também deve render situações maravilhosamente desastrosas quando alguém resolve correr ou fazer barulho na pior hora possível.
Se todo mundo cair antes de conseguir sair, o loot da expedição vai embora junto. É esse risco que faz a coleta ter peso. Não basta encher os bolsos; é preciso conseguir voltar com eles.
Pelo menos a sucata serve para alguma coisa
Tudo o que sobrevive à viagem volta para o Outpost, que funciona como a base do grupo. É ali que entram melhorias de atributos, sobreviventes resgatados, móveis interativos e novos recursos para ajudar nas próximas expedições.
Esse detalhe é importante porque dá um motivo para continuar descendo além da diversão momentânea. Uma partida boa significa avanço na base e melhores condições para tentar chegar mais fundo depois.
É também aí que Grain Rot vai precisar provar se tem fôlego. O conceito é divertido, mas jogos desse tipo vivem ou morrem pela variedade depois que o efeito novidade passa. Se as ruínas começarem a parecer iguais demais ou a progressão ficar previsível, a graça pode diminuir rápido.
Ainda é cedo para saber se isso vai acontecer. O que dá para dizer é que a estrutura está ali, e ela parece mais interessante do que simplesmente repetir partidas esperando surgir outra situação engraçada para postar nas redes sociais.
Grain Rot vale a pena?
Grain Rot me chamou atenção porque parece entender exatamente o tipo de bagunça que torna um cooperativo memorável. Não depende só de sustos ou de monstros correndo atrás do grupo. A física, os corpos descartáveis e a possibilidade de atrapalhar seus amigos fazem parte do próprio jogo, em vez de parecerem elementos colocados ali só para gerar clipes.
Ainda quero ver como essa fórmula se comporta depois de várias horas, principalmente em relação à variedade dos inimigos, mapas e evolução do Outpost. No começo, porém, Grain Rot tem personalidade suficiente para não parecer apenas mais um terror cooperativo tentando pegar carona na moda.
E conhecendo o tipo de pessoa que costuma aparecer nesses jogos, desconfio que a Rot será apenas metade dos seus problemas.
