REVIEW | The Last Ninja: inovação não depende de gráficos modernos

REVIEW | The Last Ninja: inovação não depende de gráficos modernos

REVIEW | The Last Ninja: inovação não depende de gráficos modernos

Há jogos que são lembrados pela jogabilidade. Outros, pelo impacto visual. Mas poucos conseguem marcar a história por sua trilha sonora de forma tão profunda quanto The Last Ninja, lançado originalmente em 1987 para o Commodore 64. Mesmo décadas depois, o primeiro contato com o áudio do jogo é suficiente para causar surpresa — não apenas pela qualidade técnica, mas pela capacidade de criar atmosfera.

As composições utilizam os limites do chip sonoro SID do Commodore 64 de forma quase mágica. O resultado é uma trilha envolvente, intensa e emocional, que poderia facilmente ser confundida com produções modernas do cenário chiptune. Mais do que um complemento, a música é parte essencial da identidade do jogo, elevando cada momento da jornada.

Essa força sonora ajuda a explicar por que The Last Ninja permanece relevante no imaginário retrô e é frequentemente citado como um marco técnico e artístico.

The Last Ninja jogo
Imagem via System 3 Software

A jornada solitária de vingança que define o espírito ninja

A narrativa acompanha Armakuni, o último sobrevivente de um clã ninja brutalmente massacrado. Seu objetivo é claro: viajar até a ilha de Lin Fen e derrotar o responsável pela tragédia, o poderoso Shogun Kunitoki.

Essa premissa simples é o ponto de partida para uma aventura surpreendentemente profunda. O jogo se desenrola em seis áreas distintas, combinando exploração, combate e resolução de puzzles. Ao contrário de muitos títulos da época, que focavam exclusivamente na ação, The Last Ninja exige atenção, memória e planejamento estratégico.

Itens aparentemente insignificantes — como cordas, chaves ou amuletos — podem ser essenciais horas depois. Esse design cria uma sensação constante de descoberta e recompensa, incentivando o jogador a explorar cada canto do cenário.

A perspectiva isométrica que influenciou gerações de jogos

Um dos elementos mais marcantes de The Last Ninja é sua câmera em perspectiva isométrica. Esse estilo visual, que simula profundidade em um ambiente 3D usando gráficos 2D, tornou-se extremamente popular anos depois em títulos como Super Mario RPG e Landstalker.

No contexto de 1987, porém, isso era inovador. A perspectiva ajudava a criar cenários ricos e complexos, reforçando o senso de imersão e exploração. Cada tela funcionava como um pequeno quebra-cabeça visual, exigindo observação cuidadosa para identificar caminhos, perigos e itens escondidos.

Essa abordagem transformou o jogo em uma experiência mais cerebral do que muitos de seus contemporâneos.

jogo The Last Ninja
Imagem via System 3 Software

O maior obstáculo: controles difíceis e curva de aprendizado brutal

Apesar de suas qualidades, The Last Ninja apresenta uma barreira significativa: seus controles.

Movimentar Armakuni exige adaptação, já que sua direção depende da orientação do personagem na tela. Em vez de responder de forma intuitiva, o sistema obriga o jogador a pensar em termos espaciais, o que pode causar frustração inicial.

O combate também exige precisão extrema. Um ataque mal posicionado resulta facilmente em erro, deixando o personagem vulnerável. Já os saltos são particularmente punitivos: escolher a distância errada significa cair na água ou em armadilhas, resultando na perda imediata de uma vida.

Esse nível de dificuldade não é um defeito isolado, mas um reflexo da filosofia de design da época — jogos eram feitos para desafiar e testar a persistência do jogador.

Um mundo cheio de personalidade e momentos inesperados

Mesmo com limitações técnicas, The Last Ninja surpreende pela riqueza de detalhes. Pequenas animações e eventos adicionam charme ao mundo do jogo.

Entre os momentos mais curiosos estão inimigos que, ao serem ignorados, cometem seppuku — uma referência cultural inesperada e incomum nos videogames da época. Há também criaturas escondidas, como dragões adormecidos, que reforçam o senso de mistério.

Esses detalhes mostram um cuidado artístico raro, especialmente considerando as limitações de hardware do Commodore 64.

Estratégia é mais importante que força bruta

Diferente de jogos de ação tradicionais, The Last Ninja não recompensa agressividade cega. Enfrentar todos os inimigos é um erro comum que rapidamente leva à derrota.

A sobrevivência depende de decisões inteligentes: quando lutar, quando evitar conflitos e como administrar recursos. Essa abordagem estratégica adiciona profundidade e diferencia o jogo de outros títulos da época.

Esse design também aumenta o senso de realismo e tensão, reforçando a fantasia de ser um ninja vulnerável, não um guerreiro invencível.

game The Last Ninja
Imagem via System 3 Software

O legado duradouro de The Last Ninja na história dos videogames

The Last Ninja não foi apenas um sucesso isolado — ele deu origem a uma trilogia que consolidou seu status como uma das franquias mais importantes do Commodore 64.

Sua combinação de:

  • trilha sonora revolucionária
  • atmosfera envolvente
  • design estratégico
  • e abordagem artística diferenciada

transformou o jogo em um clássico absoluto.

Mesmo hoje, ele permanece relevante como exemplo de criatividade e ambição em uma era de limitações técnicas severas.

Vale a pena jogar The Last Ninja hoje?

Apesar dos controles datados, The Last Ninja continua sendo uma experiência fascinante. Seu valor histórico, trilha sonora excepcional e design único fazem dele uma peça essencial para qualquer fã de jogos retrô.

Para jogadores modernos, ele oferece uma janela para uma era em que inovação não dependia de gráficos realistas, mas de ideias ousadas.

The Last Ninja não é apenas um jogo antigo — é um lembrete de como a criatividade pode transformar limitações em arte.

E isso, por si só, já o torna inesquecível.

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