REVIEW | Apopia: Um Conto Disfarçado
Descubra como Apopia: Um Conto Disfarçado, um o jogo indie mistura aventura point-and-click, puzzles e uma narrativa emocional sobre trauma, memória e aceitação.
Existe uma longa tradição de artistas transformando a dor em arte. Escritores, pintores e cineastas fazem isso há décadas. Nos videogames, esse movimento ainda é mais recente — mas Apopia: Um Conto Disfarçado mostra como o meio pode ser poderoso quando decide explorar emoções reais.
O jogo da Quillo Entertainment começa com uma aparência quase inocente. Cores vibrantes, personagens fofos e um mundo que parece saído de um desenho animado. No entanto, quanto mais tempo você passa com ele, mais fica claro que essa doçura é apenas a superfície.
Por baixo dela existe uma história sobre rejeição, memórias conflitantes e a dificuldade de lidar com relações familiares complicadas. E foi justamente essa dualidade que fez o jogo ficar comigo depois que terminei a campanha.

Apopia: Um Conto Disfarçado é uma aventura simples… pelo menos no começo
A trama acompanha Mai, uma garota que sofre um acidente enquanto fazia trilha com a mãe. Ao cair em uma caverna, ela desperta em um lugar estranho chamado Yogurt, um reino habitado por coelhos e outras criaturas excêntricas.
Só que esse mundo fantástico não está exatamente em paz.
Uma entidade conhecida como Boss fechou completamente o reino. Ninguém entra, ninguém sai. Presa ali, Mai acaba se envolvendo com alguns moradores locais — incluindo Nico, um gato curioso, e Moly, uma princesa que perdeu seu trono.
A missão inicial parece simples: descobrir o que está acontecendo e encontrar um caminho de volta para casa. Mas o jogo rapidamente deixa claro que voltar para casa pode ser a parte mais complicada da história.
O verdadeiro conflito não está no reino
À medida que a narrativa avança, o foco deixa de ser apenas o mistério de Yogurt e passa a explorar algo muito mais íntimo: a relação de Mai com sua mãe.
As memórias da protagonista revelam duas versões completamente diferentes da mesma pessoa. Em alguns momentos, a mãe aparece como alguém carinhosa e protetora. Em outros, surge como uma figura fria, capaz de machucar profundamente a filha.
Essa ambiguidade é um dos aspectos mais interessantes do jogo.
Apopia não tenta simplificar o conflito com respostas fáceis ou um final perfeitamente resolvido. Em vez disso, ele abraça essa contradição — algo que qualquer pessoa que já viveu relações familiares difíceis provavelmente vai reconhecer.

Explorando as dores dos outros
A mecânica mais marcante do jogo são os chamados Dark Worlds.
Mai tem a habilidade de entrar em dimensões que representam os pensamentos e memórias das pessoas. Esses lugares funcionam como versões distorcidas da mente dos personagens.
Ao explorá-los, o jogador descobre fragmentos de histórias pessoais, objetos perdidos e detalhes que ajudam a entender melhor os habitantes de Yogurt.
É uma ideia simples, mas extremamente eficaz. Em vez de apenas ouvir relatos sobre sofrimento ou trauma, você literalmente caminha dentro dessas memórias.
Algumas revelações são surpreendentemente pesadas. Há histórias sobre negligência familiar, vícios e solidão — temas que contrastam fortemente com o visual leve do jogo.
Esse contraste entre estética infantil e conteúdo emocional mais denso é justamente o que torna a experiência tão memorável.
Gameplay clássico com boas surpresas
Em termos de jogabilidade, Apopia: Um Conto Disfarçado segue a estrutura clássica dos jogos de aventura point-and-click.
Cada capítulo apresenta pequenos objetivos que precisam ser resolvidos, como encontrar códigos, localizar entradas escondidas ou ajudar personagens com problemas específicos.
Para avançar, você conversa com NPCs, coleta itens e tenta entender como cada elemento se conecta.
Os puzzles são, em geral, acessíveis. Em nenhum momento tive a sensação de estar diante daqueles desafios absurdamente frustrantes que alguns jogos do gênero costumam ter. Ainda assim, houve um ou outro momento em que precisei parar e pensar um pouco mais.
Além da exploração e dos puzzles, o jogo também inclui minigames bastante variados. Entre eles:
- desafios de ritmo
- um curioso minigame de baseball
- sequências de stealth
- movimentação com gancho
- até uma paródia de dating simulator
Esses momentos ajudam a quebrar o ritmo da aventura principal e deixam a experiência mais dinâmica.

Um visual encantador com momentos sombrios
Visualmente, Apopia: Um Conto Disfarçado aposta em um estilo artístico que lembra desenhos animados modernos, com cores vibrantes e personagens caricatos.
O mundo de Yogurt é quase sempre alegre e luminoso, o que torna os momentos passados nos Dark Worlds ainda mais impactantes. Nessas seções, os cenários ficam distorcidos, as cores desaparecem e a atmosfera muda completamente.
É um recurso simples, mas muito eficiente para reforçar o peso emocional da narrativa.
Nem tudo funciona perfeitamente em Apopia: Um Conto Disfarçado
Apesar das boas ideias, o jogo não está livre de problemas.
Alguns minigames acabam se estendendo mais do que deveriam, certos puzzles quebram um pouco o ritmo da narrativa e alguns personagens secundários aparecem pouco, o que limita o desenvolvimento deles.
Outro ponto que pode dividir opiniões é a duração da campanha. Apopia: Um Conto Disfarçado é uma experiência relativamente curta, e há momentos em que parece que certas ideias poderiam ter sido exploradas com mais profundidade.
Ainda assim, é difícil ignorar o impacto emocional da jornada.
Então, Apopia: Um Conto Disfarçado realmente compensa?
Mesmo com algumas falhas, Apopia: Um Conto Disfarçado é um daqueles jogos que conseguem algo raro: usar a interatividade para falar sobre sentimentos complexos.
Ele começa como uma aventura fofa em um reino de coelhos, mas aos poucos revela uma história muito mais pessoal sobre memória, dor e aceitação.
Talvez não seja um jogo perfeito. Mas é, sem dúvida, um jogo sincero. E, às vezes, isso é o que realmente faz uma história valer a pena.
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